O problema é a inércia

Lembro como se fosse hoje quando a Record anunciou que havia adquirido os direitos de exibição das Olimpíadas de Londres. Na época, a Globo estava focada na cobertura do mesmo evento em Pequim.

Não tenho nada contra nenhuma das emissoras. Mas sempre fui contra a diferença abissal entre a audiência e influência da Globo e as das outras emissoras. Não acredito que isso seja saudável.

Logo que começaram as Olimpíadas, comentei a respeito dos jogos e ouvi a seguinte afirmação: “esse ano as Olimpíadas estão meio apagadas, ninguém fala dela”. Fingi que não entendi muito bem a afirmação.

No dia seguinte, fui almoçar em um restaurante e a TV estava na Globo, enquanto eu acabara de saber que o Brasil estava com chances de medalha no judô. Pedi para a garçonete colocar “nas olimpíadas” (qualquer um dos canais possíveis), e ela perguntou: “em que canal está passando?”.

Poucos dias depois, li um comentário no twitter que criticava a “inércia” das pessoas de assistir à Globo: de acordo com a ‘tuiteira’, ninguém na sala de espera da clínica fazia questão de mudar para a Record para ver as Olimpíadas, e fizeram cara de “espanto” quando ela reclamou.

Utilizou a palavra correta: inércia.

Não acredito que haja uma emissora “melhor” que a Globo. Realmente, a vênus platinada merece todos os créditos e toda a audiência por seu jornalismo correto, sua teledramaturgia quase impecável, entre outros. Mas acho um absurdo viver em um país que depende de um único grupo de comunicação para definir  o que é “sucesso” e o que é “fracasso”.

Li pela internet que a média de audiência das Olimpíadas de Londres é metade da que foi alcançada nos últimos jogos. Porque não é na Globo. Será que a transmissão na Record é tão ruim que as pessoas prefiram assistir outra coisa? Duvido.

Sim, eu sei que “TV é hábito”. Sempre foi. Mas no Brasil, TV é hábito até demais. E sem discutir qualidade nem origem de dinheiro nem merecimento (que geram mais polêmica que mamilos), o fato é que essa inércia faz muito mal.

No fim das contas, a Globo tem mais dinheiro e qualidade porque tem mais audiência, e tem mais audiência porque tem mais dinheiro e qualidade.

É o ciclo da “bolachinha”: está sempre fresquinho porque vende mais ou vende mais porque está sempre fresquinho?

um pouquinho de TV

Disseram que o Mark Zuckerberg não tem televisão em sua casa. Duvido. Ele tem dinheiro pra comprar tantas TVs, acho que uma em algum canto ele deve ter, mesmo que não assista.

Excentricidades à parte, a TV brasileira está passando por um período de mudanças, que bem pode ser temporário (ou não). Audiência da Record despencando, SBT e Band conseguem alcançar bons patamares. Aliás, a Record conseguiu a façanha de “escolher” o pior momento para passar por fase ruim na audiência: bem às vésperas das Olimpíadas e justamente quando a Globo passa pelo seu melhor momento em novelas: as três principais novelas da Globo conquistam forte audiência graças à qualidade que apresentam (“Ex mai love” é música “líndja de Deus”). Malhação não conta (e passou do tempo de ser cancelada).

O Programa de Fátima: disseram que as coisas esfriaram na produção do programa, já que a audiência pulverizada impediria um super sucesso do programa de Fátima Bernardes. Também acho que a audiência da Fátima seria boa por um período e depois cairia. Juntanto com Ana Maria Braga, ainda correria-se o risco de coincidirem pautas muito parecidas, ou então o programa da Fátima poderia virar um telejornal matutino. Sem desenhos na Globo, a audiência da criançada irá se voltar totalmente para o SBT, único a exibir desenhos infantis no horário, e com (quase) certeza ele seria o grande líder de audiência pelas manhãs.

– A Fox Sports vai dar muito trabalho para a ESPN. Quiçá ao SporTV também.

– E o Saturday Night Live da RedeTV! já tem faturamento digno de Pânico. Vamos ver como vai ser de audiência.

– Juro que, depois de ouvir uns papos de que a Hebe poderia ir pra Record, eu até que gostei da ideia. Sei lá. Imaginei um quadro semanal chamado “Sofá da Hebe” no Hoje em Dia. Será que mais alguém pensou nisso?

– E sobre o caso da CPI do Cachoeira, eu acho que alguns jornalistas fazer tempestade em copo d’água. Claro que não era certo que o bicheiro comandasse a pauta da revista mais lida do país (e que revistinha vagaba, hein?). Mas já passou da hora de os grandes grupos de mídia admitirem que cada um tem suas tendências políticas. O jornalista Rodrigo Vianna (da Record) “desce a lenha” no posicionamento da Veja em relação ao Carlinhos “Cataratas”: OK, ele está certo e cumpre com sua obrigação de jornalista. Mas aí eu me pergunto: e se um dia acontecer algum escândalo envolvendo a Record, a Igreja (sabe quela?), dízimos e partidos políticos… o que será que ele vai falar?

Como diria Millôr Fernandes: “Jornalismo é oposição. O resto é armazém de secos e molhados”.

Pois é.