Autoestima

Finalmente, escrevi mais um conto. Pequeno, simples. Mas ficou legal.

Olhou-se no espelho. Ajeitou os óculos tortos, desabotoou o primeiro botão da camisa. “Bonitão”. Mentira. Não era bonitão. Mas procurava encontrar autoestima em algum lugar perdido dentro de si mesmo. Forçou um sorriso.

A jaqueta era de couro, a calça era moderna – a primeira que ele mesmo comprara, sem a presença da mãe, sem o dinheiro do pai. Aos poucos, tornava-se um homem. As balas ardidas iam para o bolso interno da direita. A carteira, no bolso interno da esquerda. Celular, no bolso da calça. Estava pronto. Ah, já ia esquecendo: a camisinha.

O preservativo funcionava como uma espécie de “amuleto da sorte”. Não esperava que fosse usar, mas precisava dela em um dos bolsos para se sentir melhor. Simbolizava uma esperança inominável, como alguém que se prostra ao lado do necessitado apenas para dizer: “eu estou aqui do seu lado”.

Necessitado. Apagou a palavra da cabeça.

Bar lotado, cheiro de cerveja barata, pessoas suadas querendo ocupar espaços inexistentes. Embrenhou-se entre braços, passou entre duas mesas, pediu “licença” cinco vezes. Longe do palco e do balcão, encontrou alguns amigos. Pelo menos tinha como respirar. A música ressoava mais fraca, mas não menos desafinada nem mais alinhada com a melodia. Quem se importa?

Bebeu um copo de cerveja quente. Apenas observava as pessoas que passavam, apertavam, agarravam, bebiam, dançavam. De repente, mais pessoas chegavam. “Oi, essa daqui é a …”. Mal teve tempo de olhar quem vinha, e sentiu uma bochecha encostar na sua: “oi, tudo bem?”. Outras bochechas vieram: uma, duas, três.

Foi só depois que viu a dona da primeira bochecha. Era linda. Não só a bochecha.

Muita coisa aconteceu. Pessoas falaram, gente dançou, amigos beberam. Às tantas horas da madrugada, ficou ao lado dela. Recebeu um sorriso, forçou outro. Assuntos banais, corriqueiros. Mas aos poucos se lembraram dos amigos em comum. Fez piada, recebeu outro sorriso.

Mais uma cerveja, mais um sorriso. “Vem, vamos dançar”. Desengonçado, mexeu o corpo, forçou alguma graça. Foi empurrado por alguém, chegou muito perto, pensou em beijo. Só pensou.

Passou um tempo. Hora de ir embora. Disse tchau, e recebeu um beijo no rosto. Beijo. “Passe lá na frente amanhã, a gente bate um papo”. Sorriu.

Sorriso lindo.

“Claro que eu passo”.

Voltou para casa leve. Sorrindo. Puxou a camisinha do bolso, jogou na lixeira de alguma casa da vizinhança. “Bonitão”, pensou.

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Um comentário em “Autoestima

  1. FABIOTV disse:

    Olá, tudo bem? Aaahhhh.. E o final feliz? Rs.. Quero continuação … Abraços, Fabio http://www.fabiotv.zip.net

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