Uma princesa

Um dia, bateu uma ideia. Surgiu, sabe-se lá de onde. Anotei e, como sempre, me esqueci. Ontem, descobri que precisava voltar a escrever. Botar os dedos pra trabalhar. E aí me lembrei da anotação, procurei e pensei. As palavras começaram a brotar e eu deixei. Saiu isso. Diferente do que eu planejei inicialmente, mas acho que ficou bonito. Se gostou, comente.

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Uma princesa

Olhava-se no espelho e sentia-se bem. Diziam que o cabelo dela era ruim. Mas não era. Ruim é não ter cabelo, dizia. Quem é que podia dizer o que era ruim ou não? Fazia penteados, amarrava, soltava. Vez ou outra, cortava.
Morava em um castelo alto e belo, onde o pai reinava, mas a mãe mandava. À beira da janela, esperava pelo príncipe encantado.
Marianne, com dois “enes”, era realmente uma princesa. Delicada, gentil e amiga, ajudava quem precisava, gostava de estudar e até lavava a louça de vez em quando. Seu pai, o rei, trabalhava todos os dias. Todos os dias, mesmo. No natal, quem sabe, conseguia ir pra praia. Mas só por um final de semana.
Sua mãe mandava. Dava ordens. Onde e como guardar o leite, como fazer compras, qual marca de sabão em pó levar, e até como e quando seriam as comemorações de aniversário. E nunca deixava gastar mais dinheiro do que o necessário. Marianne a chamava de pão-dura, mas a resposta era sempre a mesma: “Eu sou econômica. E na hora de pagar seu casamento, você vai me agradecer”.
Casamento? Que casamento? Difícil era encontrar o par perfeito: o príncipe encantado, de cavalo branco, flor na lapela e sorriso estampado no rosto. Procurar não tinha sido fácil.
Primeiro foi o Pedro: galanteador, atencioso. Queria sair o tempo todo. Baile, festinha, balada. Pagava bebida, buscava em casa. Acompanhava até o ponto de ônibus só para que ela não fosse sozinha. Marianne achava isso o máximo. Mas aí ele quis deixar a relação mais profunda. Epa, que história é essa? Um mês e já quer ir “a fundo”? Marianne não quis, e ele mudou: deixou de ser galanteador, de falar palavras bonitas e de acompanhar até o ponto. Demorou, mas entendeu suas verdadeiras intenções.
Depois veio o Raymundo. Com ípsilon! Marianne com dois “enes” e Raymundo com ípsilon. Que belo casal! Era bonito que só ele. Braços fortes. Mas não sabia agradar e queria que tudo fosse feito da sua maneira. Se não acontecia o que planejava, chateava. Esbravejava, brigava. Batia, feria. E Marianne não quis mais. Ele ainda tentou, insistiu, ligou. Mas desistiu, não sem antes humilhar, fazê-la se sentir mal.
Se o castelo era lindo, seu quarto era ainda mais. Não que fosse fácil identificar seu castelo em meio a tantos reinos, unidos, cada um com sua princesa, nenhuma mais bonita que ela. Os castelos eram todos unidos, grudados um ao outro. Em meio à imensidão de castelos, o seu era o mais belo. Não somente pelas cores ou pelas grades enfeitadas, mas porque era somente seu. Seu recanto, seu canto, seu sossego. Marianne mudava a decoração do quarto a cada dois meses. Mudava os pôsteres das paredes, a organização dos móveis, as fotos das amigas e até o papel de parede do computador.
Era no computador que encontrava sua paz. Seu meio de contato com o mundo. Não aquele mundo fora da sua porta, com violência, bárbaros que invadiam castelos. Mas o mundo dos sonhos, das fotos, das redes sociais onde todas as princesas são belas, mas nenhuma mais bela que ela. Onde todos os príncipes são carinhosos, sorridentes, engraçados.
Os afazeres de princesa consumiam os seus dias. Lavar, limpar, ajudar a mãe. Aos poucos, sobrava cada vez menos tempo para os sonhos, os devaneios. Marianne tinha que trabalhar. Para ser ainda mais princesa, comprar maquiagem, vestidos e roupas e cremes, ela ficava horas atendendo pedidos, sendo simpática com quem lhe tratava mal. Mas uma princesa não podia ficar triste ou se deixar abater.
Marianne era tão boa quanto Isabel, que libertou os escravos, ou como Diana, que ajudou refugiados. Mesmo com o trabalho e o transporte lotado. Mesmo com as enchentes e os gastos cortados. Trabalhava, estudava e sonhava. Sonhava com o que podia e o que não podia. Não que se preocupasse em realizar todos. Muitas vezes, o simples fato de sonhar era o suficiente, o combustível do viver. Mas o sonho do príncipe encantado continuava. Um dia, ele iria aparecer.
Um dia, era apenas mais um dia. Como qualquer dia. Nublado, cinzento. Ônibus, bilhete, cartão, estoque: trabalho. Ônibus, metrô, caneta, caderno: estudos. O ônibus passou em frente à escadaria. Viu, gritou, começou a descer correndo. Tropeçou, caiu, perdeu. Teria que voltar a pé?
Alguém gritou: “Hei, quer uma carona?” Marianne olhou. Olhou, sorriu, agradeceu. Olhou de novo, e teve a certeza: era ele que tinha chegado. O príncipe encantado sempre chegava quando menos se esperava.
Não chegou em um cavalo branco, como diziam os livros. Mas em um Uno branco. Isso já era bom o suficiente. Na imaginação de Marianne, era tudo igual.
Uns dizem que a vida não é como nos contos de fada. Mentira. Para ela, a vida sempre seria uma grande fantasia. Bastava saber olhar.

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2 comentários em “Uma princesa

  1. Evelyn disse:

    Que texto bonitinho de ler! Parabéns! Espero q venham outros! Vamos sonhar, rs!

  2. FABIOTV disse:

    Olá, tudo bem? Gostei !!! Admiro o estilo do texto. Frases curtas. Ação..Tem começo, meio e fim. Parabéns! Abraços, Fabio http://www.fabiotv.zip.net

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