Novo Feliz

Tudo estava impecavelmente arrumado. A ampla sala de estar tinha todos os bibelôs no lugar, as almofadas organizadamente distribuídas pelo sofá branco, os tapetes devidamente enquadrados no piso. Pela varanda cheia de vasos, plantas e poltronas, via-se quase toda a cidade, cujas luzes já se acendiam, confrontando a já enfraquecida luz do sol, que se apagava no horizonte. Os porta-retratos mostravam pares de sorrisos que se repetiam: embora os rostos variassem de jovens a idosos, as paisagens e a tonalidade das cores fossem diferentes, eram as mesmas pessoas fotografadas ao longo de suas vidas.

Em frente a um espelho, ela retirava a maquiagem. Conforme passava o algodão pela face, as cores se desfaziam, dando lugar às rugas, marcas de expressão e imperfeições espalhadas ao redor dos olhos.

Vinham-lhe as lembranças da última semana. O natal que deveria ter sido feliz fora triste e vazio. As fotos dispostas mostravam-na acompanhada. Agora, ela estava sozinha.

Um dia antes do natal, ele se fora. Bruscamente. Rapidamente. Sem dizer adeus.

O vazio deixado parecia ser infinito.

 

Jogou o algodão no lixo. Caminhou alguns passos e pressionou o botão do telefone. Uma mensagem ecoou pelo vão do apartamento.

 

Magali, minha amiga, como você está? Tentei te ligar no celular o dia todo. Eu e o Válter estamos indo pra Angra, e eu gostaria muito de ter você com a gente. Eu sei que você não deve estar com vontade de comemorar nada, mas eu acho que vai te fazer bem espairecer, ver gente, sabe? Você anda muito sozinha desde que o Beto… olha, eu quero te ver bem e gostaria muito que você fosse pra lá, tá bem? Me liga. Um beijo.”

 

Mas Magali não queria. Não podia. Não conseguia. Sentou-se no sofá, desolada, como se estivesse afundando em si mesma. E lembrou. Lembrou das viagens e das malas extraviadas. Lembrou dos cães que ajudaram a levar a uma chácara. Lembrou da noite em que foram assaltados, e ele segurou sua mão com força. Lembrou da comemoração de 25 anos de casamento. Lembrou-se da perda da mãe, quando tinha ao menos um par de braços para acalentar a dor. Lembrou-se dos filhos que nunca tiveram. Lembrou-se do ateliê abandonado, empoeirado e cheio de telas parcialmente pinceladas.

 

Olhou pelo vidro da varanda. Os fogos pipocavam pela paisagem. Ouviu estouros e explosões que vinham de longe. Pareciam comemorações vindas de outro planeta.

 

Recostou-se nas almofadas. Fechou os olhos. Amanhã começaria tudo de novo. Buscaria força, sorrisos e novos objetivos. Talvez voltasse a pincelar seus sentimentos nas telas brancas. Não haveria comemoração, mas um sono profundo e reanimador. Assim, o novo ano nasceria calmo, quieto, ensolarado e talvez, depois de algum tempo e esforço, feliz.

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2 comentários em “Novo Feliz

  1. […] não estou com a animação para escrever mensagenzinhas de feliz ano novo… apenas escrevi um texto que espero que tenham […]

  2. Celso Garcia disse:

    Wow! Q legal, Daniel. Não conhecia seu blog pessoal e logo de cara virei fã. Gostei do texto, do simples ao profundo em poucas palavras. Mto legal 🙂

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