Diferenças

Se tem uma coisa boa que a internet proporciona de maneira bastante intensa, é a discussão. Discutir um tema, assunto, uma polêmica, ou algum tipo de divergência, sempre ajuda. Mesmo que não mude a cabeça de ninguém, a discussão ao menos permite que cada um entenda melhor como pensam os que pensam diferente.

Há algum tempo atrás, acompanhei um debate (no twitter!!) entre o crítico de cinema Pablo Villaça e Lola Aronovich, professora da Universidade Federal do Ceará. Cada um tem seu blog e suas ideologias. Não vou entrar em detalhes sobre as discussões, mas ambos são bastante embasados naquilo que dizem: não são adolescentes ociosos que se usam de argumentos rasos.

Recentemente, fiquei abismado com um post da Lola sobre homens que disseminam o ódio: são racistas, machistas, masculinistas, e se autodeclaram “sanctos”. Na minha inocência, pensava que esse tipo de pensamento já  havia sido enfraquecido e estava quase findado, mas continua forte em alguns grupos. Não procurei o blog nem me aprofundei no assunto… tudo isso é muito pra minha cabeça. Prefiro ler sobre cinema e sobre os capítulos da novela.

É claro que as discussões são muitas a respeito do assunto. Até que ponto essas pessoas são realmente capazes de matar um negro ou estuprar uma mulher? (já que declaram que esse tipo de coisa é “correta”). Até que ponto isso (escrever e incitar o preconceito na internet) pode ser crime? Muitos deles se declaram contra mulheres, alegando que elas só gostam de cafajestes e mentem ao dizer que preferem homens românticos. O que os leva a pensar assim? Prefiro nem discutir isso. Guerra dos sexos, pra mim, só fica no âmbito das compras na 25 de Março e das preferências por como realizar a festa de casamento. Procuro enxergar com simplicidade.

Hoje, li um post do jornalista André Forastieri sobre racismo. Lá a discussão não é tão “pesada”, mas também traz muito debate.

Tudo isso me levou a pensar nas diferenças entre os seres humanos, e a lembrar de uma aula do professor Carlos Eduardo Berriel sobre literatura clássica, que tive o privilégio assistir durante minha graduação. O que preconceito e racismo e machismo tem a ver com literatura? Explico:

Na Grécia antiga, as pessoas valorizavam apenas quem era da sua cidade-estado, e desconsideravam todos que eram estranhos/estrangeiros. Havia uma valorização da unidade. Aos poucos, foi-se valorizando cada vez mais a arte, o estrangeiro e o auto-conhecimento. Tudo isso é representado pelo deus Dionísio (Baco, na adaptação romana). O deus Dionísio representava a arte, a alteridade e o teatro. Para os gregos (e pra nós também), a arte e o teatro representavam a busca pelo auto conhecimento. Tudo isso está na peça “As Bacantes”, de Eurípedes. Nas representações da peça que eram feitas na época (cerca de 405 a.C.), o mesmo ator que fazia Dionísio também fazia Penteu, o rei que não aceitava a chegada da nova divindade. Eles eram “a mesma pessoa”. Ou seja, para aceitar o OUTRO é necessário que se aceite A SI MESMO. Se analisarmos mais a fundo, veremos que os dias de culto a Dionísio eram os dias em que as camadas da sociedade se desfaziam e todos “confraternizavam” (ou seja, aceitavam o outro), daí o surgimento de que ele também era o deus do vinho. Mas essa discussão fica pra depois. E certamente há pessoas que entendem muito mais do assunto que eu.

Durante toda a sua história, o ser humano sempre teve de lidar com o paradoxo de tentar ser “semelhante” e ao mesmo tempo diferente. Todos queremos ser iguais: andar com a mesma roupa, venerar o mesmo deus, ter o mesmo estilo de vida; mas convivemos  com a “angústia” de sermos diferentes em muitas características. Só passamos a aceitar que os outros são diferentes de nós quando nos aceitamos como diferentes dos outros.

Será que isso é difícil de entender?

Somos todos diferentes. Cada um tem um tamanho, uma cor de pele, um tipo de cabelo, um gosto por comida e um tipo de deficiência (algumas mais visíveis, outras menos).

Aceitar as diferenças é o mesmo que aceitar a si próprio. E a arte é o caminho para isso.

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2 comentários em “Diferenças

  1. André San disse:

    Talvez o grande paradoxo da humanidade esteja diretamente relacionada com a vida em sociedade. Não somos autosuficientes, portanto, nos organizamos numa sociedade. E sociedade, muitas vezes, implica num grupo com afinidades, pontos em comum. Quando adolescentes, temos a necessidade de nos sentirmos parte de um grupo, portanto agimos de acordo com o grupo que “escolhemos”. Adolescentes querem se sentir iguais aos outros, mas ao mesmo tempo buscam a individualidade. Isso se reflete, com menos intensidade, na vida adulta. O que quero dizer com essa pataquada toda é que todos somos iguais dentro de nossa individualidade. E que o segredo do bem viver é saber conviver com aquilo que lhe é diferente. E, infelizmente, algumas mentalidades não foram formadas para compreender o mundo desta forma. Por questões culturais, ou por ignorância, fato é que isso nada mais é que intolerância. Daí vem o ódio e o extremismo, como o nazismo.
    André San – http://www.tele-visao.zip.net

  2. FABIOTV disse:

    Olá, tudo bem? Realmente vivemos em uma sociedade que despreza as diferenças…Até poderia fazer uma relação com os princípios do fordismo, mas não vou fazer uma tese de sociologia e psicologia por aqui.. Rs.. Abraços, Fabio http://www.fabiotv.zip.net

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