Cenas do cotidiano

O texto abaixo é mais um dos que eu tenho prontos. Estou republicando aqui no Curyoso.

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-Posso falar o que eu quero falar?

-Não, não pode, respondeu a mãe, sem se importar com a feição emburrada ou mesmo a voz que denunciava o choro imitente da guria.

Letícia tinha 7 anos: teimosa, moleca, hiperativa.
Maria das Dores tinha 40: brava, regrada, cansada.

Das Dores, como era conhecida, trabalhava o dia todo como secretária em uma escola de ensino infantil. À noite, para ganhar um dinheiro extra, fazia salgados e pães de queijo para festas.

Letícia passava o dia na escola e gostava de brincar de carrinho, ao contrário das outras amiguinhas. Talvez por isso ela era mais amiga dos meninos que das meninas.

Uma vez, ela havia sido chamada de prostituta, por uma coleguinha que achava que meninas que passavam o tempo com meninos podiam ser chamadas deste nome. Sem levar desaforo pra casa, Letícia derrubou a colega ao chão e pisou na cabeça dela, o que obrigou a diretora a chamar sua mãe.

À noite, Letícia gostava de “ajudar” a mãe na cozinha.

-Então não vou mais te ajudar, você é tonta. Letícia saiu pisando duro no chão e foi para o quarto. Das Dores respirou fundo, em um misto de cansaço com alívio. Mais tarde ela conversava com a filha.

Salgados prontos, pães de queijo semiprontos (afinal, só pode botar no forno pouco antes da entrega), e das Dores foi dormir, cansada. Não sem antes certificar-se de que Letícia estava devidamente coberta e dormindo como um anjo que a guria jamais conseguira ser quando desperta.

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