Luzes Fracas

Não é sempre que eu escrevo textos ficcionais. Vez ou outra, no entanto, alguma coisa sai das pontas dos meus dedos, que teclam intermitentemente os botões do computador.

Há algum tempo, criei um blog para publica alguns destes textos. No entanto, gostaria de centralizar tudo aqui no Curyoso.

Aos poucos, vou publicar cada um dos meus textos (que não são muitos).

“Luzes Fracas” é um conto “de natal”. Foi escrito às vésperas do natal de 2009.  Já vou adiantando que você não vai rir:

Luzes fracas

Os personagens da novela falavam para as paredes. Miguel estava com os pensamentos inertes. Seus olhos fixavam o nada. O menino gritou do quarto. Pai, por que você está demorando? Calma, já vou. Os pensamentos voltaram. Ao chegar ao quarto, a conversa foi longa, o filho continuava com medo. Medo do escuro, medo do que poderia estar dentro do armário, debaixo da cama, do lado de fora da janela.

Não adiantava explicar que não havia nada, e que a altura do quinto andar impedia que alguém entrasse pela janela. Era necessário acender a luz, fazer uma varredura por todos os cantos obscuros e apertados entre os móveis e as paredes. Após dar o beijo de boa noite, ele acende a luz do banheiro ao lado, deixa a porta entreaberta. É necessário que haja luz para o menino não sentir medo.

Domingo, final de tarde, Miguel deixa o filho na casa da mãe. Sua casa vai voltar a ser quieta e triste. Os brinquedos ficarão estocados no armário até o final de semana seguinte. O natal será em breve, e ele prefere não pensar se vai estar com o filho no dia de abrir os presentes. Após se despedir do filho, sem sequer olhar nos olhos da mulher que espera no portão, o lugar que ele tem pra ir é um só.

O estacionamento é apertado, os corredores são gelados. O forte cheiro entra no nariz e ajuda a piorar a sensação de que há um novelo de lã no estômago. Na cama do quarto 201, ele encontra um ser pálido, magro, de olhos fundos e movimentos lentos. Mesmo assim, Miguel sorri. Um sorriso metade forçado, metade verdadeiro. Forçado porque é necessário mostrar felicidade para quem se encontra em um estado de tamanha enfermidade e não pode ver lágrimas. Verdadeiro, porque é natural sorrir diante de um grande amigo, não importa em qual condição ele esteja.

O amigo sorri de volta. Um sorriso magro, rápido, mostrando os dentes fracos e amarelados. Eles conversam. Sobre o filho, sobre o médico, sobre os exames. Sobre quem ele encontrou na rua, quais as últimas novidades. Fazem piadas. As risadas são miúdas, anoréxicas, como se fosse proibido rir, mas a sensação de paz que ela trazia era perfeita demais para contê-la. Se rir fosse atividade ilegal, com direito a pena de morte, mesmo o risco de morrer faria valer a pena rir. Quem consegue viver sem dar risada?

Mas rir não era proibido. Proibido era dizer o nome do vírus. O nome da doença, então, havia sido banido totalmente. Como se nunca tivesse existido. Miguel não podia passar a noite com ele. Além de ser proibido, ele tinha seu emprego. O emprego não dava mais prazer. Tinha como único objetivo garantir seu dinheiro para pagar as contas, a parcela do carro, a pensão do filho. Os sonhos que ele carregara desde sua colação de grau vinham se esvaindo, definhando, talvez um pouco menos rapidamente que seu melhor amigo.

Os dias passavam vagarosos. Paulo chorava todos os dias. Tinha febre, delírios, tremores. Tenho medo, dizia ele. Tenho medo. Miguel não entendia, e também tinha medo. Mas ele queria não ter medo. Medo do quê? Foi na sexta-feira à tarde que Paulo disse, completamente são: eu sei que eu vou morrer, mas tenho medo. Miguel, que tinha o hábito de apenas se sentar, pegou na mão do amigo: não diga isso.

Foi buscar o filho um tanto transtornado. Mas alegria de menino muda tudo. Limpa o céu, muda o ritmo das músicas no rádio, abre sorrisos. Ah!, os sorrisos, indispensáveis. À noite, na hora de dormir, o medo. Medo do escuro. Miguel perdeu a paciência. Seu filho precisava se tornar um homem, e não temer o escuro. Afinal, por que você tem medo do escuro? Sem pensar muito, o menino respondeu: Porque eu sinto medo de tudo que eu não conheço. Sem pensar muito, Miguel apagou as luzes, fechou a porta. No breu, sentou-se no chão, pegou na mão do filho, que estava deitado na cama, receoso. Eu vou ficar aqui com você. O menino dormiu. Miguel também. Os sonhos de ambos foram vazios. Uma cortina preta de silêncio e descanso.

No domingo, a notícia: o natal seria sem o filho, sem alegria. O beijo de despedida foi também de feliz natal. Duas semanas passam rápido. E visitar a vovó é sempre bom.

Noite de natal. As luzes pareciam mais fracas. O coração mais apertado. O silêncio das paredes frias era cortado pela conversa de duas enfermeiras que reclamavam. A televisão mostrava algumas crianças loiras falsamente felizes.

O quarto continuava igual. Para Paulo, não parecia ser uma data comemorativa. Não havia nada para celebrar. Não foi como das outras vezes. As lágrimas escorriam mais livremente. Miguel lutava para manter-se impassível. Apertou forte a mão de seu amigo. A mão estava fria, magra, e não conseguia corresponder o aperto. Não como costumava fazer antes, na época em que as preocupações eram menores, as risadas mais freqüentes, as luzes de natal mais intensas. Paulo chorava sem lágrimas. E repetiu: eu tenho medo.

Miguel apertou sua mão. Não precisa ter medo, eu vou ficar aqui com você. O choro parou, os olhos se fecharam. Mais alguns segundos, e o choro agora era de Miguel. Seu amigo, finalmente, teria um feliz natal.

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4 comentários em “Luzes Fracas

  1. danielmiyagi disse:

    Parabéns, gostei. Ás vezes também publico ficção em meu blog, não que eu me considere um talento na ficção, mas o blog é minha forma de expressão. E acho que você está pegando esse formato no blog, falando de várias coisas não apenas um tema, como era antes que era falar só de tv. Gostei do texto ficcional
    Daniel Miyagi
    http://danielmiyagi.blogspot.com/

  2. danielmiyagi disse:

    ué meu comentário não apareceu…

  3. danielmiyagi disse:

    Tô gostando dessa nova fase do Curyoso, não falando apenas de tv, mas também de outros assuntos. Gostei de sua ficção. O atual formato do meu blog´também é assim, falo de várias coisas também. E não tendo a pretensão de me achar um escritor ás vezes também arrisco algum texto de ficção.
    http://danielmiyagi.blogspot.com/
    Abraço
    Daniel Miyagi
    PS: espero que apareça dessa vez o comentário pois acho que não escrevi nada de ofensivo

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